sábado, 27 de julho de 2013

ADORMECIDO OU ACORDADO

Em minha vida, que já ultrapassa 4 décadas, vivi algumas grandes mobilizações. Na infância, cresci sob o regime militar, mas como criança que não acompanhava o noticiário e vivia numa cidade quase “interiorana”, o regime passou batido. Quando despertei para o assunto, já era um estudante de 2º Grau, me mobilizando para o “Diretas Já”. A mobilização que realmente me marcou foi o “Fora Collor”, com os caras pintadas na rua. Era bancário na época, simpatizante do PCB e do PT e me preparando para estudar História na UFRGS, curso escolhido por meu engajamento nas questões políticas.


Mas as mobilizações recentes me pareceram algo inédito e diferente. Nunca imaginei, por exemplo, ver a população da cidade em que moro, e olhem que moro desde que nasci nesta cidade, sair às ruas para protestar. Acho que esta foi a tônica em todo o Brasil e aí está o algo inédito e diferente. Em outros momentos, as mobilizações foram chamadas por grupos políticos, sindicatos, partidos etc. Desta vez, o povo tomou as ruas num chamamento que começou nas redes sociais e que muitos acreditavam não ganharia força. O contrário ocorreu e as manifestações foram as mais intensas e até turbulentas dos últimos anos.

Temos acompanhado o movimento dos anônimos nas redes sociais tomando conta de várias iniciativas de protestos espalhados pelo mundo. Este grupo tem como marca usar a máscara do personagem anarquista Guy Fawkes, da História em Quadrinhos “V de Vingança”, de Alan Moore e David Lloyd. Muitos não levam a sério estas pessoas, dizendo que são apenas adolescentes brincando de serem anarquistas. O certo é que a descrença na classe política, totalmente subserviente ao capital, faz aumentar o número de “aventureiros mascarados” ao ponto de conseguirem aquilo que organizações políticas/sindicais não têm conseguido.

O “gigante acordou” e sua bandeira não tem simbologia partidário-sindicalista, é a mais pura manifestação de inconformidade com a corrupção que tomou conta do país. Mas, vamos deixar bem claro, está corrupção não é exclusividade de um partido ou de um nível de governo, ela está enraizada em nosso país desde que ele ainda nem era um país e hoje atinge todos os escalões, do municipal ao federal, passando pelo estadual. Tudo isso mostra o quanto este movimento é legítimo e autêntico, mesmo com alguns excessos e oportunismos de alguns grupos.

Agora é acreditar que o resultado apareça com muita clareza e algumas coisas já estão acontecendo, mas as próximas eleições poderão mostrar melhor isso. Não acredito nos políticos, nem em mudanças que eles poderão vir a fazer, mas se as urnas derem uma chacoalhada no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, tirando algumas figurinhas perpétuas do poder, já estará valendo a pena. Por outro lado, um bom número de votos nulos, algo realmente significativo, poderá abrir um debate diferente na agenda política do Brasil, mas isso é algo que só o tempo nos mostrará.

Texto: Denilson Rosa dos Reis

domingo, 26 de maio de 2013

1968: É PROIBIDO PROIBIR

Arte de Anderson Ferreira
O título deste artigo procura sintetizar o que foi o ano mais significativo do século XX: 1968. Quarenta e cinco anos atrás jovens, operários, camponeses, negros e mulheres saíram às ruas mundo afora para manifestações de luta pelos seus direitos, além de protestos pela falta de democracia, contra a Guerra do Vietnã e até mesmo contra a “caretice” dos pais.

Mobilização Mundial
Daniel Cohn-Bendit um franco-alemão liderou um grupo de jovens estudantes da Universidade de Nanterre, Paris, insatisfeitos com o sistema autoritário e a burocracia da instituição. A partir daí os jovens foram as ruas e se deu um verdadeiro embate com as forças policiais. Embora os franceses recebam o rótulo de terem dado início as manifestações, elas ocorreram em vários momentos e países, cada um com suas especificidades e consequências. No México, 48 universitários foram mortos no famoso Massacre de Tlatelolco. O primeiro protesto contra a guerra no Vietnã a ser televisionado se deu em Berlim, Alemanha. Em Roma, Itália, os estudantes unidos aos operários fecharam a Universidade. Na então Tchecoslováquia, os soviéticos invadiram Praga para sufocar as tentativas de reformas dentro do sistema stalinista. Já nos Estados Unidos os protestos foram desde a contrariedade da Guerra do Vietnã até a luta dos direitos civis dos negros, liderados pelos Panteras Negras, passando pela busca de respeito as mulheres e gays.

Cenário Nacional
Assim como ocorria no resto do mundo, no Brasil os jovens também iniciaram seus protestos contra a reforma universitária do governo Costa e Silva, contra a repressão da Ditadura Militar implantada em 1964 e pela volta da democracia. A morte do estudante Edson Luís foi o mote para a explosão de uma manifestação gigantesca que desencadeou na famosa Passeata dos 100 Mil. No Rio de janeiro os estudantes organizaram uma passeata que acabou levando vários seguimentos a engajarem-se nela.

Contracultura
No campo cultural, os anos 1960 também foram efervescentes e, as mais diversas manifestações artísticas incorporaram-se ao espírito da rebeldia e contestação da época. O movimento hippie veio para apresentar uma forma de convívio coletivo que se opunha aos valores de uma sociedade capitalista, consumista, individualista e, principalmente, moralista e conservadora. Assim, a arte produzida estava nesta sintonia. Exemplos: a peça Hair que apresentava o movimento hippie e a chamada Era de Aquários; o festival de Woodstock e as molodias que saíam da guitarra de Jimi Hendrix; o Cinema Novo e o Tropicalismo no Brasil; as histórias em quadrinhos de Robert Crumb e Gilbert Shelton.

Reação Violenta
As manifestações que ocorreram em todo planeta foram severamente reprimidas pelos governos, fossem eles democráticos ou ditatoriais, de direita ou de esquerda. Diversas lutas campais foram realizadas em cidades como Paris, Chicago, México, Praga, Varsóvia, Rio de Janeiro. No Brasil a ditadura dos Generais chegou a seu auge autoritário com a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI5) com a finalidade de desarticular os setores políticos de oposição, os movimentos populares, tanto urbano como rural. Além disso, abusou da violência e tortura contra presos políticos.

O Sonho Continua
Comemorar os 45 anos do Maio de 68, longe de ser apenas uma recapitulação histórica, é mostrar que os sonhos daqueles jovens ainda não estão mortos. Eles continuam no imaginário de milhares de jovens e adultos que continuam lutando contra o sistema, que teimam em não se renderem a avalanche do pensamento único da sociedade capitalista que tenta nos proibir de sermos o que somos. É proibido proibir de sonhar!

Texto: Denilson Rosa dos Reis
Ilustração: Anderson Ferreira (RS)

domingo, 14 de abril de 2013

SOCIALISMO?

Arte de Jeferson Adriano

Prezados Amigos!
Hugo Chavez se foi e uma história foi escrita. Independente do que se pensa ou se pensava do líder bolivariano, o caro escreveu um capítulo da história da América Latina. Vejam artigo que escrevi em 2008 tentando entender o Governo Chavez.

Desde a chegada de Hugo Chavez ao governo da Venezuela e, principalmente após o golpe de direita que sofreu, começou-se a falar em um governo socialista na Venezuela. Além disso, a própria imprensa iniciou uma onda de reportagens sobre o socialismo tomando conta da América do Sul com a eleição de partidos de esquerda, auto-intitulados socialistas, comunistas ou trabalhistas. Lula no Brasil; Tabaré Vazquez, no Uruguai; Michelle Bachelet, no Chile; Evo Morales, na Bolívia e até Néstor Kirchner, na Argentina. A pergunta é: estes são governos socialistas?

Em primeiro lugar a história mostra que não se chega ao socialismo através de um sistema eleitoral burguês. São coisas contraditórias. Vejamos o caso do Brasil: Lula e o PT ficaram 20 anos com um discurso de esquerda, propostas revolucionárias, críticas à burguesia e rompimento com o imperialismo. Defendiam o socialismo, eram chamados até de “barbudos” pela imprensa numa alusão a Fidel e a Revolução Cubana. Foi preciso mudar não só o discurso, mas o programa de governo, aliar-se a setores conservadores e dar garantias a elite de que nada mudaria radicalmente para, nesta democracia, chegar ao governo. Digo “ao governo”, pois ninguém pode ser ingênuo de achar que o poder está nas mãos do PT.

Ainda sobre o Brasil de Lula, e isto vale para o resto da América do Sul – com exceção de Chavez – que socialismo é este em que um dos setores que mais lucra é o capital especulativo, que anda de mãos dadas com os EUA de Bush e faz discursos moderados sobre a atuação imperialista, isto quando não os apóia – como no Haiti?         

Quanto à Venezuela de Chavez, vemos um anti-norteamericanismo, um anti-Bush. Hugo Chavez não é contra o imperialismo, tanto que mantém acordos econômicos e estratégicos com o Canadá e a União Européia. Este “socialismo do século XXI” de Chavez carece totalmente de uma teoria socialista revolucionária. Não podemos confundir nacionalismo com socialismo, e isto é o que me parece no caso venezuelano.

Claramente a América Latina vive um momento histórico de profunda transformação. O caminho está aberto para uma possível revolução. Isto pode ser comprovado com a chegada ao governo destes partidos e lideranças populares e sindicais que hoje ocupam os cargos de presidente em seus respectivos países. A mobilização popular está na rua, o que falta é o povo tomar o controle e saber barrar os conciliadores e moderados que permitem uma aproximação da burguesia aos projetos populares. Cada um defende seus próprios interesses, é bom não nos esquecermos disto.

Texto: Denilson Rosa dos Reis
Ilustração: Jeferson Adriano (MG)

quarta-feira, 6 de março de 2013

EDUCAÇÃO NO RS: ESTUDO DE CASO

Arte: Paulo Fernando

Prezados Amigos:
Começamos mais um ano letivo nas escolas públicas do Rio Grande do Sul. O governo atual repete o descaso com a Educação e com os trabalhadores e trabalhadoras na Educação. Muda governo, muda partido, mas a falta de compromisso continua a mesma. Convido os amigos a lerem artigo que escrevi na época em que o governo anterior estava assumindo para verem que realmente nada mudou efetivamente.

Yeda Crusius assumiu o governo do Rio Grande do Sul e logo começou a colocar em prática o seu “novo jeito de governar” que havia falado durante a campanha eleitoral, mas que não deixara muito claro como seria. Aliás, antes de assumir mandou um projeto para a Assembléia Legislativa que não foi aprovado. Resultado: acabou sobrando para o funcionalismo, mais uma vez, pagar a conta da falta de recursos no caixa do estado.

Em relação à Educação, publicou um decreto proibindo qualquer tipo de convocação de professor. Convocação é quando um professor tem sua carga horária ampliada para suprir necessidades de pessoal na escola. A intenção do governo é diminuir despesas alegando que, segundo números do governo, 28% dos professores estão em funções administrativas, o que leva a falta dos mesmos em sala de aula.

Concordo que lugar de professor é na sala de aula. O que sempre aconteceu em muitas escolas é o fato de não existir um profissional específico para cada área, levando professores concursados para sala de aula a serem deslocados para trabalhar como supervisor escolar, orientador educacional, bibliotecário, secretário e até auxiliar de disciplina. No caso de uma escola, estes setores são importantíssimos para o desenvolvimento do trabalho de sala de aula, como suporte aos professores. No momento em que os professores retornam para a sala de aula, profissionais da área deveriam ser nomeados para ocuparem estas lacunas. Disse “deveriam”, pois não é o que está acontecendo.

Arte: Jeferson Adriano
Estudo de Caso: Colégio Castro Alves

O Colégio Estadual Antônio de Castro Alves, um dos maiores do estado e tido como referência no município de Alvorada, foi um dos mais afetados com o “novo jeito de governar” de Yeda. Vários professores que ocupavam cargos administrativos retornaram para sala de aula, deixando os setores desfalcados. Não existe mais auxiliar de disciplina para controlar os corredores, diminuiu o atendimento na secretaria, reduziu a carga horária da supervisão e a biblioteca está fechada durante o dia. Para uma escola com quase 3 mil alunos isto é o caos. Sem falar que, ao retornarem para sala de aula, estes professores acabaram substituindo outros, que tiveram que deixar a escola.

Mas o caso mais grave ocorreu com os alunos de 6 anos – a nova 1ª série. Recém chegados ao colégio, fizeram adaptação com uma professora convocada. Um mês e meio depois, o governo cortou sua convocação e as crianças ficaram um mês sem aula até a chegada de uma nova professora. Pensou-se no burocrático e jogaram o pedagógico no lixo.

Bem, sabemos que tudo isso que vem acontecendo é fruto do desmonte da educação pública levada a cabo por governos neoliberais. Neoliberalismo é uma palavrinha que anda meio esquecida nestes últimos anos de governos pseudos-esquerdistas espalhados pela América do Sul, mas que continua como pauta dos governos. Para quem conhece a trajetória política do PSDB e da, pasmem, professora Yeda Crusius, nada é estranho.

Então pessoal! Este texto é de seis anos atrás, mas com certeza ainda reflete a situação de muitas escolas públicas espalhadas pelo estado do Rio Grande do Sul, mesmo que o governador seja outro e o PSDB tenha dado lugar ao PT.

Texto: Denilson Rosa dos Reis
Ilustração: Paulo Fernando (CE) & Jeferson Adriano (MG)

sábado, 8 de dezembro de 2012

ELEIÇÕES 2012


“Hoje a gente já não sabe de que lado estão certos cabeludos se são da direita ou da traseira já não se sabe mais de que lado” (Raul Seixas)

Arte de Alex Doeppre
Hoje está cada vez mais difícil saber de que lado estão certos políticos brasileiros, se ao lado do povo para atender as demandas necessárias para uma vida digna, ou ao lado daqueles que só pensam nos seus benefícios individuais, pouco se importando com o que ocorre ao seu lado. Esta dúvida vem a partir daquilo que os políticos acabam fazendo ou deixando de fazer, mesmo tendo sido eleitos para tomar as decisões que irão ao encontro dos anseios populares.

Em Alvorada, após uma nova disputa majoritária entre PT e PTB – a terceira nos últimos 12 anos – podemos realmente acreditar que o prefeito eleito, o senhor Serginho do PT vai cumprir com suas promessas de campanha? No mínimo, podemos esperar que os compromissos assumidos nos projetos de governo apresentados durante a corrida para chegar ao topo do poder executivo municipal serão postos em prática? E os vereadores eleitos, poderemos esperar honestidade, transparência e muito trabalho no mandato que iniciará em 2013?

Dúvidas, como sempre muitas dúvidas e os culpados por ficarmos em dúvida são os próprios políticos, afinal “promessa não é dívida”. O PT venceu as eleições majoritárias em Alvorada, após um mandato do PTB marcado por uma série de denúncias de corrupção, ou seja, os eleitores deram um basta na farra da corrupção anunciada pela imprensa que chegou a mostrar a Polícia Federal “pedalando” a porta da Prefeitura. Se as denúncias são verdadeiras, caberá a Justiça julgar, mas as cenas foram fortes e certamente influenciaram a decisão popular. Por outro lado, ao olharmos a nominata dos vereadores eleitos, nenhuma surpresa. Os velhos “coronéis do século XXI” eleitos. Também tivemos, entre os eleitos, candidatos denunciados por corrupção no último governo e outros por compra de votos. Afinal, o que mudou?

Os mesmos eleitores que derrubaram o candidato da atual administração alegando corrupção elegeram vereadores da mesma prática ilícita e também compra de votos. Onde está a coerência? E o prefeito eleito, Professor Serginho e seu partido o PT, enfrentarão a corrupção ou, em nome da tal governabilidade farão acordos com partidos que ficaram 8 anos ao lado do PTB, como o PDT por exemplo.

Dúvidas, muitas dúvidas, afinal alguém sabe de que lado estão certos cabeludos, digo, políticos brasileiros? Ah, e toca Raul!!!

Texto: Denílson Rosa dos Reis
Ilustração: Alex Doeppre (RS)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

ALVORADA: 47 ANOS


Nossa cidade completa neste mês 47 anos. Veja um pouco de sua História através do relato de minha infância na década de 1970.

Momento presente: Shopping Center, Lan House, vídeo game, condomínio fechado, bonecos de super-heróis, escolinhas de futebol com grama sintética, carrinhos de ferro para coleção... Década de 1970: patinete e carinho-de-lomba de rolimã, futebol de rua, jogo da cela, bolinha de gude, taco... Acompanhando o crescimento de meus filhos, Henrique e Fernanda, vejo como a infância deles está sendo diferente da minha. Acho importante resgatar a memória de como era a infância na década de 1970, principalmente em uma cidade periférica como Alvorada, onde a população nunca teve acesso a grandes inovações da mídia.

Estudar pela manhã era sempre o desejado pela garotada, pois assim teríamos à tarde para brincar, e a principal brincadeira era jogar bola. Naquela época jogávamos todos os dias e o campo era o meio da rua. Fazíamos goleirinhas com tijolos ou lata de azeite dividia-se dois ou três para cada lado e passávamos a tarde jogando, muitas vezes reunia-se muitos garotos e formavam-se quatro ou mais times, o que terminava em um torneio onde as disputas eram acirradas. Mas não era só futebol! Como a falta de brinquedos era grande, poucas crianças tinha carrinhos e bonecos e, quando tinham não tiravam de casa, a saída era improvisar. A partir de madeiras e rolimãs, construíamos patinetes e carinhos-de-lomba. Claro que não era qualquer um que fazia, mas uns ajudavam os outros. Descer a lomba da Castelo Branco (Parada 43) numa disputa com um colega era de dar inveja os jovens que hoje muito precocemente disputam corridas de Kart.

A maioria das brincadeiras envolvia disputas como jogar bolinha de gude “as verda”. Esta expressão significava que se você ganhasse as bolinhas de seu colega no jogo, elas seriam suas. Não vou negar que muitas vezes acabávamos brigando, mas diferente de hoje, as brigas não iam muito além do momento, no dia seguinte estávamos brincando novamente. Outra brincadeira que dava disputa era jogar taco, cuja finalidade era para quem estava com os tacos, acertar uma bolinha arremessada pelo adversário e trocar de lado com seu colega antes do adversário pegar a bolinha. Para quem estava sem os tacos, o objetivo era acertar a casinha do adversário com a bolinha para ter direito a ficar com os tacos. Brincávamos com carinhos feito de lata, com pneus velhos, com latas de leite ninho cheias de areias puxadas por fios de nylon, de se esconder quando caia a noite, de campeonatos de jogo de botão e também jogar chimpa. A chimpa era uma pedra em forma de circulo onde você teria que acertar a de seu colega e vice-versa. O mais interessante é que naquela época não se jogava a dinheiro, mas criávamos toda uma estrutura financeira de valores a partir de carteiras de cigarro para apostarmos no jogo de chimpa. Cada marca de cigarro recebia um valor.

Nem tudo era só brincadeira, havia as aventuras. Morava na Vila Fontoura. Nesta época não existia o Jardim Porto Alegre, muito menos o Jardim Algarve e o Porto Verde. Ainda não havia projeto para a construção do BIG e o RS Futebol. Toda aquela área era uma verdadeira mata, com muitas árvores e pássaros, além do arroio que passava por meio dela. Saíamos para cassar passarinho armados de fundas (estilingue), uma arma feita de forquilha de árvore com caninhos de soro amarrados em cada parte da forquilha com um corinho na outra extremidade para se arremessar uma pedra. Se não era para caçar, íamos pescar no arroio. Muitas vezes nos embrenhávamos no mato e ficávamos até perto da noite, o que gerava pavor devido a lendas de fantasmas e assombrações que apareciam na mata, embora nunca tenha visto nada. Mas a maior lenda urbana, sem dúvida era o “velho do saco”, porque este realmente existia e nós o conhecíamos. Tratava-se de Seu Quiquito, um velhinho que andava pelas ruas atrás de pasto, e para isso usava um saco nas costas e uma foice nas mãos. Mas vai contar para as crianças daquela época que o “velho do saco” não fazia mal!

Nos fins-de-semana a diversão era acompanharmos os times de nossa vila nos jogos do campeonato amador da cidade. Torcíamos pelo Fontoura e, principalmente pelo Unidos. Também tinha o Cine São Jorge, que poucos acreditam que existiu. O “pulguinha” como era carinhosamente chamado costumava passar filmes de artes marciais na matinê, domingo à tarde. Mas a idade foi avançando e novas diversões foram surgindo, como as discotecas. Estávamos deixando a infância para entrar na adolescência. Resgatar as memórias de minha infância é também resgatar as vivências do povo desta cidade.

Texto: Denilson Rosa dos Reis
Originalmente publicado no livro Raízes de Alvorada

domingo, 26 de agosto de 2012

OS MELHORES DO MUNDO

Montagem de Alex Doeppre

Mais uma vez a Seleção Brasileira de Futebol não conquistou o único título que falta em sua sala de troféus: a medalha de ouro olímpica.  Mas decepções acontecem no futebol e mesmo o Brasil sendo “os melhores do mundo”, nem sempre ganharemos. Aproveito este fato para trazer um artigo que escrevi após a decepcionante derrota na Copa de 2006. Confira a seguir!

Um dos clássicos desenhos animados de super-heróis chama-se “Os Melhores do Mundo”. Nesse episódio, Superman e Batman estão em volta de uma disputa envolvendo seus arqui-rivais Lex Lutor e Coringa, e deverão enfrentá-los para provar que realmente são os melhores do mundo. A seleção brasileira de futebol chegou à Copa da Alemanha como os melhores do mundo, mas diferente dos super-heróis, pois seu comandante, o técnico Parreira, acreditava que não era necessário provar nada a ninguém, bastava colocar os melhores em campo. Ledo engano! Nas quartas-de-final nossos arqui-rivais (lembram de 1986 e 1998?) provaram que são tão competentes quanto Lex Lutor e Coringa, e nossos “supers” não estão a altura de Superman e Batman. Enquanto Superman tem que usar toda sua força e Batman seu intelecto contra seus inimigos, nossa seleção parecia mais preocupada com as fotos, os comerciais e seus recordes pessoais do que enfrentar os franceses.

Cafu queria erguer a taça pela segunda vez; Parreira tornar-se bi-campeão como técnico; Zagalo buscava seu 5º título; Ronaldo a artilharia dos mundiais (e conseguiu!) e Ronaldinho ser o craque dos craques, talvez mais que Pelé. E todos buscando contratos milionários com empresas de publicidade. Ronaldinho Gaúcho, aliás, faz com que eu desconfie que suas apresentações no Barcelona sejam truques de montagem, como aquele em que ele acerta repetidas vezes a trave e sempre domina a bola no retorno. Bem, tinha que acabar desta forma. Agora é aguardar 2010 e quem sabe contar com Superman e Batman para que sejamos os melhores do mundo. Do contrário, é jogar futebol.

Texto: Denilson Rosa dos Reis
Ilustração: Alex Doeppre (RS)